As tensões entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e antigos aliados militares alcançaram um novo patamar após declarações feitas pela defesa do político, tentando atribuir a criação do chamado “gabinete do golpe” a generais que ocuparam cargos-chave em seu governo.
A estratégia, vista por muitos como uma tentativa de Bolsonaro de desvincular-se do plano golpista, gerou acusações de deslealdade e críticas contundentes por parte dos militares envolvidos, que consideram a postura uma traição aos vínculos forjados durante seu mandato.
O advogado de Bolsonaro, Paulo Cunha Bueno, afirmou em entrevista que o plano teria sido liderado pelos ex-ministros Augusto Heleno e Walter Braga Netto, isentando o ex-presidente de responsabilidade direta.
Segundo ele, se o plano tivesse êxito, esses generais, considerados mais leais a Bolsonaro, assumiriam o comando do governo.
Essa declaração intensificou o mal-estar, sendo classificada como uma “jogada de opinião pública” que tenta construir a narrativa de que Bolsonaro desconhecia os atos, mas que, segundo advogados dos generais, é estrategicamente incoerente.
Militares apontaram que essa não seria a primeira vez que Bolsonaro tenta se esquivar de acusações transferindo responsabilidades a terceiros, mencionando episódios semelhantes envolvendo o ex-ajudante de ordens Mauro Cid e outros aliados próximos.
Para os envolvidos, a postura reflete um padrão que já se manifestou em crises anteriores, agora agravado pela gravidade das acusações no inquérito sobre o “gabinete do golpe”.
O advogado criminalista Fábio Tofic avalia que Bolsonaro, ao não reportar à Polícia Federal o suposto plano, não apenas teria prevaricado, mas também agido com conivência.
A Polícia Federal identificou Augusto Heleno como chefe, Braga Netto como coordenador-geral, e outros oficiais, como o general Mário Fernandes e o coronel Élcio Franco, como assessores diretos no esquema, incluindo-os na lista de 37 indiciados.
O episódio evidencia o desgaste entre Bolsonaro e figuras centrais de seu governo, ressaltando divisões que podem comprometer ainda mais sua base de apoio.
Além disso, a situação reitera os desafios enfrentados em investigações que envolvem políticos e militares de alta patente, onde a busca pela verdade muitas vezes esbarra em conflitos de interesses e estratégias jurídicas.

