A sensação de estar à deriva, sem controle sobre o destino, é um dos maiores medos de quem se aventura em alto-mar. O desespero cresce a cada hora, somado à incerteza sobre o resgate e à luta constante contra a fome, o frio e o medo.
Foi essa angústia que o empresário Maikel Araujo dos Santos, de 42 anos, e o amigo Ronald Menezes viveram por cerca de 50 horas após uma pane elétrica deixar a lancha em que pescavam sem condições de retornar à costa do Espírito Santo.
A dupla havia saído de Anchieta no domingo, dia 28 de setembro, para uma pescaria que deveria durar poucas horas. O passeio, no entanto, se transformou em uma prova de resistência quando o motor parou e a comunicação foi interrompida.
Sem rádio e sem como pedir socorro, os dois improvisaram: usaram uma camisa e uma capa para criar uma vela que permitiu movimentar a embarcação. Durante os dias à deriva, enfrentaram ondas de mais de cinco metros, ventos fortes e noites sem dormir.
O alimento veio dos cerca de 200 kg de peixes que haviam pescado antes da pane. Ronald limpava os peixes e eles os consumiam crus, temperados apenas com água do mar, para se manterem de pé.
No terceiro dia de desespero, acreditando que poderia não resistir, Maikel gravou um vídeo de despedida para a esposa, que está grávida de sete meses. Na gravação de quase dois minutos, ele pede desculpas, declara amor e lamenta a possibilidade de não conhecer a filha.
“Quero ver minha filha nascer e crescer. Se não voltar, saiba que você foi a melhor coisa da minha vida”, disse, emocionado. Veja o vídeo emocionante:
https://www.instagram.com/p/DPT658vlfu4/
O alívio veio quando um rebocador a serviço da Petrobras avistou a lancha no litoral de São João da Barra, no Rio de Janeiro. O resgate foi registrado em vídeo, mostrando o empresário chorando ao receber comida e a confirmação de que voltaria para casa.
Para Maikel, a experiência deixou marcas profundas: “Não desejo isso a ninguém. Acho que não volto mais a pescar. Agora só quero acompanhar minha filha e cantar com ela”.

