Mesmo entre os mais altos representantes da Justiça brasileira, os embates de ideias e de personalidades podem ultrapassar os limites da formalidade. O Supremo Tribunal Federal, palco das decisões mais importantes do país, testemunhou nesta semana um episódio que expôs o quanto divergências internas podem se transformar em confrontos entre ministros.
Durante o intervalo de uma sessão plenária, o decano Gilmar Mendes e o ministro Luiz Fux protagonizaram uma acalorada discussão que surpreendeu colegas presentes. O embate teve origem após Fux suspender o julgamento de um recurso apresentado por Sergio Moro, que tenta reverter a decisão que o tornou réu por calúnia contra o próprio Gilmar.
O decano, em tom irônico, questionou o colega e chegou a sugerir que ele “fizesse terapia para se livrar da Lava Jato”. A provocação não passou despercebida. Segundo relatos obtidos pela imprensa, Fux respondeu afirmando que havia pedido vista do processo apenas para uma análise mais aprofundada.
O ministro também expressou incômodo com críticas públicas que Gilmar teria feito a seu respeito. Sem recuar, Gilmar admitiu as críticas e afirmou que falava “abertamente” sobre o colega, a quem chamou de “figura lamentável”.
A troca de farpas ocorre num contexto de antigas divergências dentro da Corte. Durante os anos da Operação Lava Jato, Gilmar Mendes se consolidou como um dos maiores críticos das ações da força-tarefa, enquanto Fux era visto como um de seus defensores mais fiéis.
A diferença de posturas, que já vinha se acumulando há anos, parece ter reacendido durante o debate sobre o recurso de Moro e o julgamento que envolveu o ex-presidente Jair Bolsonaro. Fontes ouvidas relatam que Gilmar ainda criticou a extensão do voto de Fux no caso Bolsonaro, classificando-o como “sem sentido” e “impositivo”.
O episódio, embora isolado, expõe uma face humana do Supremo: a de que, por trás das togas e do linguajar jurídico, há egos, emoções e opiniões que nem sempre convergem e que, às vezes, vêm à tona de forma explosiva.

