A violência praticada dentro do ambiente familiar ainda é um dos fenômenos mais complexos e difíceis de enfrentar no Brasil. Embora o país registre índices elevados de agressões contra mulheres, há modalidades menos conhecidas que ampliam o sofrimento das vítimas.
Uma delas é a chamada violência vicária, caracterizada quando o agressor atinge filhos ou pessoas próximas com o objetivo de causar dor emocional à mulher. Infelizmente casos como este não são tão incomuns.
Especialistas apontam que a falta de dados consolidados dificulta a formulação de políticas públicas específicas, ainda que iniciativas recentes, como o Mapa Nacional da Violência de Gênero, tenham começado a incluir registros desse tipo de ocorrência.
A delegada Amanda Souza, da Polícia Civil do Pará, conhece essa realidade de forma profunda. Ela recorda que, em dezembro de 2022, decidiu encerrar um relacionamento marcado por ciúme excessivo e comportamento controlador.
Segundo relata, a situação vinha se agravando e já não era possível manter a convivência. Meses depois, em 10 de julho de 2023, sua vida foi atravessada por um acontecimento devastador.
Naquela manhã, recebeu uma mensagem do ex-companheiro insinuando que seu futuro seria solitário. Horas depois, durante uma ligação telefônica, ele afirmou ter tirado a vida dos dois filhos do casal.
“Ele me escreve uma mensagem na manhã, dizendo que meu futuro seria de tristeza e solidão. Eu vou para a delegacia trabalhar. E aí, quando dá 16h, ele me liga. E nessa ligação ele me fala: ‘Parabéns, você conseguiu o que você queria: eu matei os seus dois filhos'”, relembrou a delegada.
Amanda trabalhava à época em uma delegacia especializada no atendimento a mulheres em situação de violência, no município de Cametá. Atualmente, aos 43 anos, atua em Belém, na Unidade de Recuperação de Dispositivos Móveis.
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Ao comentar um caso semelhante ocorrido recentemente em Itumbiara (GO), ela relatou ter revivido a própria dor ao acompanhar as notícias. O que mais a impactou, segundo conta, foram manifestações nas redes sociais responsabilizando a mãe pela atitude do agressor, muitas vezes sob a alegação de uma suposta traição.
Para a delegada, esse tipo de reação revela traços persistentes de machismo estrutural, em um país que segue registrando números elevados de feminicídios. Ela defende que compreender a violência vicária é essencial para romper ciclos abusivos e evitar que conflitos conjugais se transformem em instrumentos de punição emocional.
Ao compartilhar sua trajetória, Amanda afirma buscar conscientizar outras mulheres sobre sinais de relacionamentos abusivos, reforçando a importância de redes de apoio e de políticas preventivas que priorizem proteção e informação.

